VIOLÊNCIA FAMILIAR CONTRA MULHERES LÉSBICAS: UMA REVISÃO INTEGRATIVA DA LITERATURA
Resumo
Este estudo buscou compreender o que a literatura apresenta sobre a violência contra mulheres lésbicas no contexto familiar. Situa-se a lesbofobia como forma específica de violência que atravessa as vivências de mulheres lésbicas, especialmente no espaço doméstico, ressaltando a importância de tensionar os discursos que naturalizam a heterossexualidade compulsória e o apagamento das experiências homossexuais. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, realizada por meio de uma revisão integrativa da literatura. Para a coleta de dados, foi realizada uma busca nas bases de dados SciELO, BDTD, PePSIC e LILACS, considerando estudos em língua vernácula, publicados entre 2015 e 2025. A análise resultou em três categorias: (1) a família como lócus de controle, heteronormatividade e violência, evidenciando-a como espaço de disciplinamento dos corpos e das sexualidades; (2) invisibilidade, silenciamento e interseccionalidade nas vivências lésbicas, que evidenciou como a lesbofobia, o racismo e outras opressões se combinam na produção de violências; e (3) resistências, redes de apoio e reconstrução de vínculos afetivos, a qual destacou a atuação dos movimentos lésbicos, a articulação com o movimento negro, as redes de apoio e as políticas públicas como espaços de enfrentamento da lesbofobia. Conclui-se que a família, frequentemente idealizada como espaço de proteção, é também um dos principais cenários de violência contra mulheres lésbicas, incluindo expulsões, agressões físicas, psicológicas, morais e religiosas. Tais violências são atravessadas por marcadores como raça, gênero e classe, incidindo de forma particular sobre mulheres lésbicas negras. Concomitantemente, apresenta-se estratégias de resistência, a importância de movimentos sociais e a necessidade de políticas públicas.
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