ROÇADOS QUILOMBOLAS E ETNOCONHECIMENTO NA AMAZÔNIA: MANEJO DA MANDIOCA E CONSERVAÇÃO DA AGROBIODIVERSIDADE NA COMUNIDADE RAMAL DO BACURI, ABAETETUBA, PARÁ

Resumo

O estudo analisou os sistemas produtivos e as práticas tradicionais associadas aos roçados da Comunidade Ramal do Bacuri, localizada na Amazônia paraense, município de Abaetetuba, Pará, com o objetivo de compreender o papel dessas áreas na economia familiar, na conservação da agrobiodiversidade e na preservação dos saberes locais. A pesquisa justifica-se pela relevância da agricultura de subsistência para as comunidades amazônicas, cuja base produtiva sustenta não apenas a alimentação, mas também a identidade sociocultural e o equilíbrio ambiental. O trabalho adotou uma abordagem qualitativa, com aplicação de entrevistas semiestruturadas a famílias agricultoras, observação in loco e análise descritiva dos dados obtidos. Os resultados demonstraram que os roçados ocupam áreas de 1.250 m² a 12.500 m², sendo o cultivo da mandioca (Manihot esculenta Crantz) a principal atividade econômica, associada a outras espécies alimentares. Verificou-se o predomínio de práticas tradicionais de derruba e queima, uso de ferramentas manuais e mão de obra familiar, com destaque para a participação das mulheres nas etapas de plantio e manejo. Constatou-se ainda que os roçados funcionam como espaços de conservação de etnovariedades, de circulação de saberes e de fortalecimento da cultura local. Conclui-se que o sistema agrícola do Ramal do Bacuri expressa uma forma sustentável de manejo e resistência cultural, essencial para a manutenção da vida comunitária na Amazônia.

 

Biografia do Autor

Janaina Pinheiro Gonçalves, Secretaria Municipal de Educação de Abaetetuba

Licenciada em Ciências Naturais – Química (UEPA) e Pedagogia, especialista em Ensino de Química e Educação do Campo, mestre em Ciências Ambientais e doutora em Biodiversidade e Biotecnologia (BIONORTE/UFPA). Atua em pesquisas sobre etnoconhecimento, agrobiodiversidade e ensino de Química, com foco em comunidades amazônicas. Coordenadora do Ensino Fundamental (anos finais) em Abaetetuba, professora de Química com atuação em gestão educacional, educação quilombola e participação em fóruns e grupos de pesquisa na Amazônia.

Valdomiro Vale de Carvalho Junior, UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ

Mestrando em Cidades, Territórios, Identidades e Educação (UFPA/CAPES), com licenciaturas em Filosofia, Pedagogia e História, além de diversas especializações na área de Ciências Humanas. Atua como Técnico Pedagógico na SEMEC de Abaetetuba e possui experiência docente na educação básica e superior em instituições públicas e privadas. Desenvolve atividades em ensino, pesquisa e gestão educacional, com foco em educação, territorialidade, políticas públicas e realidade amazônica.

Divino Rogério Cardoso Silva, Secretaria de Estado de Educação do Pará

Licenciado em Letras (UFPA), Pedagogia e com diversas pós-graduações em Educação do Campo e Estudos Amazônicos; mestre em Educação e Cultura (UFPA). Atuou como professor de Língua Portuguesa, Literatura e Artes, gestor escolar e supervisor do PIBID/CAPES, com experiência na região ribeirinha de Abaetetuba. Atualmente coordena o MORIVA, atua no PARFOR e desenvolve pesquisas em educação quilombola, camponesa e socioambiental na Amazônia.

Jhonys Benek Rodrigues de Sarges , Secretaria Municipal de Educação de Abaetetuba

Professor licenciado em Geografia, Faculdades Integradas Ipiranga, Especialista em Educação no Campo, Mestre em Ciência da Educação, pela Universidade de Desenvolvimento Sustentável - UDS Paraguai, Professor de Geografia e Estudos Abaetetubenses, Paraenses e Amazônicos, na Prefeitura Municipal de Abaetetuba.

Marineide Ribeiro Lopes, Secretaria Municipal de Educação de Abaetetuba

Pedagoga (UFPA), especialista em Gestão Escolar e mestra em Cidades, Territórios, Identidades e Educação (UFPA). Possui experiência em docência, coordenação pedagógica e gestão na Educação Básica e Profissional em Abaetetuba-PA. Atualmente é Diretora de Ensino da SEMEC e integra grupo de pesquisa em políticas públicas, biodiversidade e sustentabilidade.

Ingrid Rayane Dias Rodrigues, Secretaria Municipal de Educação de Abaetetuba

Mestranda em Educação e graduanda em Pedagogia (UFPA), especialista em Libras e licenciada em Ciências Naturais – Física (UEPA). Integra grupo de pesquisa em Educação, Infância e Filosofia, com experiência em projetos na área de ensino de Ciências. Desenvolve pesquisas sobre formação de professores, pensamento decolonial e trabalho docente.

Marinei Brandão Pinto , Secretaria Municipal de Educação de Abaetetuba

Graduado em Pedagogia, História e Teologia, com especializações em Educação Quilombola, Educação Inclusiva e Educação do Campo na Amazônia. Mestrando em Cidades, Territórios, Identidades e Educação (UFPA), com 20 anos de experiência em educação do campo e quilombola. Atualmente atua como técnico pedagógico na SEMEC de Abaetetuba, na área de educação étnico-racial e escolar quilombola.

Jefferson Felgueiras de Carvalho, UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ

Doutor e mestre em Educação pela UFPA, com formação em Educação Física, Fonoaudiologia e Pedagogia, além de especializações na área educacional. Atua como docente da educação pública desde 2003, com ampla experiência em gestão, tendo sido Secretário Municipal de Educação de Abaetetuba (2009–2016) e atualmente ocupando novamente o cargo. Participa de conselhos, fóruns e grupos de pesquisa, com atuação em políticas públicas educacionais, planejamento e formação docente.

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Como Citar

Pinheiro Gonçalves, J., Cardoso Silva, D. . R., Rodrigues de Sarges , J. B., Ribeiro Lopes, . M., Dias Rodrigues, I. R., Brandão Pinto , . M., & Felgueiras de Carvalho, J. . (2026). ROÇADOS QUILOMBOLAS E ETNOCONHECIMENTO NA AMAZÔNIA: MANEJO DA MANDIOCA E CONSERVAÇÃO DA AGROBIODIVERSIDADE NA COMUNIDADE RAMAL DO BACURI, ABAETETUBA, PARÁ (V. Vale de Carvalho Junior, Trad.). RECIMA21 - Revista Científica Multidisciplinar - ISSN 2675-6218, 7(5), e757919. https://doi.org/10.47820/recima21.v7i5.7919