INIQUIDADES DE GÊNERO NAS RELAÇÕES CONJUGAIS E VIVÊNCIAS DAS MULHERES CASADAS
Resumo
Objetivo: compreender as vivências de mulheres no contexto do relacionamento conjugal e a divisão de papéis estabelecida na conjugalidade, na perspectiva feminina. Métodos: estudo qualitativo exploratório, realizado com 15 mulheres cisgênero (40–49 anos), casadas ou em união estável há mais de cinco anos, usuárias de uma Unidade de Saúde da Família de município de pequeno porte do interior paulista. Foram realizadas entrevistas abertas gravadas, transcritas na íntegra e submetidas à análise temática, com apoio do software MAXQDA 24, orientada pela perspectiva emancipatória feminista. Resultados: emergiram quatro temáticas centrais: (1) significados atribuídos ao relacionamento conjugal; (2) naturalização da condição subordinada do ser mulher, expressa nas tarefas domésticas, no cuidado e na obediência; (3) responsabilização feminina pela manutenção do casamento; e (4) “despertamento de si”, com movimentos de ressignificação, autonomia e reconstrução de modos de vida (incluindo independência financeira, estabelecimento de limites e renegociação de acordos na relação). As vivências oscilaram entre sofrimento, sobrecarga e desigualdades de gênero e, em alguns casos, processos de transformação e maior reciprocidade. Considerações finais: os achados evidenciam que a conjugalidade é atravessada por normas de gênero que sustentam assimetrias e podem repercutir na saúde mental e física das mulheres. Ao mesmo tempo, o “despertamento de si” aponta possibilidades de mudança quando há condições para reconhecer injustiças, fortalecer a autonomia e renegociar papéis e limites na relação; assim, compreender essas vivências no cotidiano dos serviços de saúde pode apoiar o enfrentamento das iniquidades de gênero no casamento e a promoção de trajetórias mais seguras e equitativas.
Biografia do Autor
Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP/SP, Brasil. Professora titular do Centro Universitário de Santa Fé do Sul – UNIFUNEC/SP, Brasil.
Doutora. Professora do Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP/SP, Brasil.
Doutora. Professora do Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP/SP, Brasil.
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